Publicidade

Publicidade

Anuncie aqui!

Newsletter

Inscreva-se para receber a nossa Newsletter e se manter atualizado.

Compartilhe

Compartilhe

Compartilhe

Compartilhe

Buscar

Sobre ser mãe

  • Compartilhar

Era uma manhã de sábado, despertei quando o corpo quis, espiei o relógio e não esbocei qualquer tipo de culpa ao perceber que o ponteiro tava pertinho de registrar dez horas. Levantei e ouvi o silêncio da casa. Nem me lembrava mais de como é gostoso perceber os sons do cotidiano. O latido de cachorro na rua, o cantarolar do vizinho, o borbulhar da água quente avisando que já era hora de coar o café. Ah, o café! Pressa? Tive nenhuma! Saboreava cada pedacinho da broa de fubá enquanto corria os olhos nas manchetes do jornal.
Depois do banho, escolhi a roupa como nos tempos de adolescência. Coloquei uma trilha sonora de fim de semana e experimentei umas três combinações dançando em frente ao espelho.
Mas comecei a me incomodar. Estava estranhamente leve. Fui ao supermercado e quando olhei pro carrinho só tinha uma garrafa de vinho e uma bandeja de japa. Heim? Cadê os doze tipos de fruta? As sete variedades de legumes? Levei apenas quinze segundos pra percorrer o setor de biscoitos. Como assim? E os quinze minutos que eu gasto lendo rótulos na crença quase milagrosa de encontrar um produto que não esteja tão distante do paladar do meu filho, nem da orientação da nutricionista? Aliás, alguém já chegou perto dessa linha do equador? Também não gastei os outros vinte minutos olhando para variedade quase infinita de iogurte, que deveria ser um simples iogurte, me perguntando: qual eu levo nesta semana? Esquisito, muito esquisito.
Fui pra casa confiante de que iria revelar este mistério. Pra minha surpresa abri a porta e não havia nenhum brinquedo travando a minha entrada. Nadica. Chão intacto, sem obstáculos nos corredores. Sofá livre? Corri pra garantir o meu programa favorito na TV. Fiquei uns dez minutos olhando de um lado pro outro e ninguém chegou pra disputar o controle. Caso de polícia? De médico? “Gente, isso tá ficando estranho demais”, pensei.
Sai sem saber exatamente pra onde, com quem, sem ter hora pra voltar pra casa... Meu caminho cruzou com um motorista desses ruins de roda que quase me fez bater o carro. Não abri a janela, mas soltei um palavrão em voz alta. Bem alta! Não foi nervosismo não. Foi por liberdade mesmo. Ninguém me ouvia. Ninguém me observava. Ninguém me corrigia. Pude ser eu mesma, com meus erros, com minha imperfeição, sem a obrigação de me fazer exemplo. Não era mãe.
 “Mãeeeeee, eu quero leite, levanta!”. Sim, saltei do sonho pra vida real. Dois rapazinhos pulavam em cima de mim na cama porque já era hora de preparar o café. Os olhos inchados de sono, o pijama curto na canela, enfim, a cena de sempre. Fizeram o habitual cinco segundos de silêncio e começaram a implicar um com o outro em busca de mais espaço no meu aconchego. Tentei abstrair a rotineira confusão e me lembrar do sonho: do tempo livre, do precioso silêncio, da leveza, da liberdade, ai, a liberdade! Respirei profundamente e sai em disparada pra cozinha gritando: quem chegar por último é mulher do padre!
Penso que ser mãe é um ato de renúncia. Deixamos de ser únicas, nos dividimos em outros corações. Aceitamos compartilhar a estrada que era só nossa, amparamos outros passos e aprendemos que em alguns momentos é preciso ficar pra trás. Às vezes, me pergunto como teria sido seguir a liberdade de uma caminhada sem filhos. Confesso que o peso da bagagem me paralisou em alguns trechos. Mas aí vem o amor e transforma a exaustão em coragem. Eu sigo. Certa de que estou no lugar que desejei estar, numa troca de passos que me faz completa, me faz inteira. Sou mãe e não quero despertar deste sonho.
 

Comentários

Comentário cadastrado com sucesso. Aguardando aprovação.

Nenhum comentários cadastrado.

Publicidade

Compartilhe